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Excesso de cordas empobrece disco em que Raquel dilui Roberto em clima de fado

Em tese, é excelente a ideia de trazer o cancioneiro romântico de Roberto Carlos e Erasmo Carlos para o universo do fado. Sobretudo porque há, em boa parte desse repertório atemporal, a mesma melancolia que alavanca o gênero português. Na prática, contudo, a ideia resulta pobremente executada no álbum Roberto Carlos por Raquel Tavares – Do fundo do meu coração, idealizado e produzido por Max Pierre.

Recém-lançado em CD no Brasil pela gravadora Sony Music, o disco peca pelo excesso de cordas – sintetizadas por Tutuca Borba, tecladista da banda do Rei – nos arranjos criados pelo também tecladista Júlio Teixeira de acordo com o conceito de Pierre. Não basta inserir uma guitarra portuguesa (tocada por Bernardo Couto) para transformar uma música em fado. Sobretudo se as cordas virtuais estão ali, proeminentes, pasteurizando as orquestrações de músicas como A distância (1972) – grafada erroneamente como À distância na contracapa e no encarte da edição em CD – e Palavras (1973), balada em que a cantora dribla os equívocos dos arranjos e oferece aceitável interpretação.

Capa do álbum 'Roberto Carlos por Raquel Tavares – Do fundo do meu coração' (Foto: Divulgação / Sony Music)

No geral, contudo, o canto de Raquel Tavares dilui as emoções e sentimentos contidos em músicas como a balada-blues Sua estupidez (1969) e De tanto amor (1971), doída canção de amor que daria belo fado se tivesse sido gravada em tom adequado. De tanto amor, aliás, traz a voz passional de Ana Carolina, desperdiçada na gravação. Já a presença terna de Caetano Veloso em Debaixo dos caracóis dos seus cabelos (1971) é mais bem aproveitada, ainda que a faixa pouco ou nada tenha de fado.

A linearidade dos arranjos, calcados em fórmula que parece se repetir com poucas variações, empobrece o disco, da primeira música – Você (1974), outra canção talhada para o universo do fado pela alta carga de tristeza – à última, Do fundo do meu coração (1986), uma das últimas grandes canções do Roberto. E o pior é quando produtor e arranjador procuram seguir a ideia do arranjo original da gravação de Roberto, como em Detalhes (1971), criando espécie de clone do registro original.

De todo modo, a abordagem de Cavalgada (1977) deixa claro que a opção pelo excesso de cordas é o fator mais determinante para o resultado pífio do álbum, quase todo gravado no estúdio Cia. dos Técnicos, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Somente a voz de Raquel Tavares e a guitarra portuguesa de Bernardo Couto foram captados em Portugal, no estúdio Vale de Lobos, situado em Lisboa.

Se mais bem dirigida, Raquel Tavares talvez oferecesse canto condizente com esse magistral repertório. Afinal, mesmo competindo com tantas cordas, a voz da cantora ainda sobressai eventualmente em canções como Não se esqueça de mim (1977), evidenciando que o problema do disco não está em Raquel Tavares, mas na produção equivocada. O fato é que, do fundo do coração, esse disco soa totalmente aquém da boa ideia original. Porque não basta o toque de uma guitarra portuguesa para criar um fado. (Cotação: * *)

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