Musicas

De bem com a vida, Martinho faz 80 anos nos braços do samba, do povo e da Vila

“Quem quiser saber meu nome,

Não precisa perguntar

Sou Martinho lá da Vila,

Partideiro devagar

Quem quiser falar comigo

Não precisa procurar

Vá aonde tiver samba

Que eu devo estar por lá”

Ao se apresentar em versos do samba Quem é do mar não enjoa, um dos sucessos do retumbante álbum de estreia que lançou em 1969, Martinho José Ferreira deu a senha para a entrada no universo particular de um dos grandes compositores do Brasil. Foi nessa cadência lenta que, devagar devagarinho, sempre de bem com a vida, Martinho chega hoje, 12 de fevereiro de 2018, aos 80 anos de vida, festejados na madrugada dessa segunda-feira de Carnaval do alto de um carro alegórico do desfile da Unidos de Vila Isabel, a escola de samba que o cantor incorporou ao nome artístico desde a década de 1960, como visto na foto de Alexandre Durão, do G1.

Martinho não é do mar, mas da terra batida de Duas Barras (RJ), cidade fluminense onde veio ao mundo em 12 de fevereiro de 1938, dia de Carnaval. Ao migrar para a cidade do Rio de Janeiro (RJ), Martinho foi para o morro e, nas andanças entre morro e asfalto, começou a pavimentar os caminhos de obra que, embora pautada pelo samba, tem certa diversidade rítmica que comporta gêneros como o ruralista calango e até o blues.

O jeito manemolente de cantar já fez com que todo mundo pensasse que Martinho era baiano, como ele mesmo reconhecia, maroto, nos versos de Boa noite (1969), outro sucesso do histórico primeiro álbum solo do sambista. Martinho até canta e compõe o samba da Bahia, mas a matriz da obra autoral do artista é o samba à moda do Rio de Janeiro. Foi nesse vasto terreirão que Martinho fez história ao dar tom mais coloquial ao samba-enredo e ao atualizar o partido alto, trazendo o samba das quadras para a sala de estar da classe média do Brasil.

Martinho da Vila, no desfile da Unidos do Peruche, escola de samba de São Paulo que celebrou os 80 anos do artista (Foto: Fábio Tito/G1)

Contudo, todo e qualquer traço de modernidade na obra de Martinho sempre foi desenhado sem ruptura com a tradição. Não raro, o partideiro devagar dá voz a bambas já ancestrais como Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897 – 1973), o Pixinguinha, e João Machado Guedes, o João da Baiana (1887 – 1974). Martinho sabe ir na fonte dos batuques. Mas esse batuqueiro de cadência própria nunca deixou de reforçar a assinatura em cada samba que compõe. É uma assinatura reconhecível, forte, típica de quem tem um estilo que o livra de preocupações com métricas e rimas. Chegou a compor o samba-enredo Pra tudo se acabar na quarta-feira (1983) – obra-prima do gênero com o qual a Vila Isabel desfilou no Carnaval de 1984 – sem refrão. Coisa de bamba!

Na vida, Martinho também parece ser bamba. Venda dez mil ou um milhão de discos (como aconteceu com o álbum de 1995 Tá delícia, tá gostoso), permanece o mesmo, sem alterar o comportamento zen. A filha Mart’nália teve bem a quem puxar. Não há quem não goste de Martinho, o Ferreira, cidadão de bem. Prova foi a ovação das arquibancadas na madrugada de hoje quando, do alto do carro abre-alas do desfile da Unidos de Vila Isabel, Martinho passou feliz pela avenida, festejando os 80 anos de vida nos braços do povo e do samba, em tom maior.

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